terça-feira, 9 de março de 2010

Meu Lado Mulher






"Meu lado mulher
se incomoda em receber mensagens apenas um dia por ano (8 de março), enquanto que meu lado homem se enche com 364 dias. Talvez seja necessária esta efeméride, dor recente de uma antiga cicatriz. Porque se vive numa sociedade machista: matrimônio, o cuidado do lar; patrimônio, o domínio sobre os bens.


O marido possui o carro, a casa e a mulher, que inclusive, em alguns países, incorpora o sobrenome da família dele. Ele exige que limpe a casa todo dia. Manda o carro para a oficina ao menor defeito. À mulher, ser multifacetado, cabe o dever de cuidar da casa, dos filhos, das compras e do bom humor do marido, que nem sempre se lembra de cuidar dela.


Meu lado mulher
nunca viu o marido gritar com o carro, ameaçá-lo ou agredi-lo. Enquanto nem ela é sempre tratada com tanto respeito. Na Igreja Católica os homens têm acesso aos sete sacramentos. Podem até ser ordenados sacerdotes e, mais adiante, obter dispensa do ministério e contrair matrimônio.


As mulheres,
consideradas pela teologia vaticana um ser naturalmente inferior, só têm acesso a seis sacramentos. Não podem receber a ordenação sacerdotal, mesmo tendo merecido de Jesus o útero que o engendrou; o seguimento de Joana, de Susana e da mãe dos filhos de Zebedeu; a defesa da mulher adúltera; o perdão da samaritana; a amizade de Madalena, primeira testemunha da sua ressurreição.


Meu lado mulher
tem pavor da violência doméstica; do pai que assedia a filha, enviando-a a perdição da prostituição; do patrão que exige favores sexuais de sua funcionária; do marido que levanta a mão para profanar o ser que deu a luz a seus filhos.


Diante do televisor ou de um molho de revistas
meu lado mulher se estremece: Cala a boca, Magda! Ela é burra, a imbecil que move as cadeiras no fundo do cenário, se mete na banheira do Gugu, se expõe na casa do brother, se associa à publicidade de cervejas e carros, como um adereço a mais de consumo.


Meu lado mulher
trata de resistir diante do implacável jogo da desconstrução do feminino: tortura do corpo em academias de ginástica, anorexia para manter-se esbelta, vergonha das gorduras, das rugas e da velhice, entrega ao bisturi para que amolde a carne
ao gosto da clientela da carnificina virtual, o silicone para ressaltar protuberâncias.

E manter a boca fechada, até que haja no mercado um chip transmissor automático de cultura e inteligência que se possa enxertar no cérebro. E engolir antidepressivos para tratar de encobrir o buraco no espírito, vazio de sentido, ideais e utopia.


Meu lado mulher
se esforça por se livrar do modelo emancipatório que adota, como paradigma, meu lado homem. Será que ela tenta não querer ser como ele? Navega em mares nunca dantes navegados, rumo ao continente feminino, onde as relações de gênero serão de alteridade, porque o diferente não se fará divergente.
Aquilo que é só terá plenitude em interação com seu contrário.
Como acontece em todo verdadeiro amor".



Autoria: Frei Beto

Texto enviado por: Aliene
Publicado por mim no blog: Tulipas a A Dança da Vida (08/03/2009)

Imagem:
www.ualberta.ca/.../Presentations/Nature.htm




5 comentários:

Norma Villares disse...

Adélia Namaste
Que lindo texto, principalmente vindo de um Frei. Muito sensível esse homem, eu creio que o Yin e o Yong dentro dele estão bem equilibrados.
Grata pelas palavras sempre tão gentis. A vida fica mais bela quando perfumamos o ambiente com palavras encorajadoras.
Na verdade esse perfume exala da pura essência que você consegue colocar para fora com sapiência.
Estou fazendo um post com suas palavras.
Deus abençoe seus caminhos e enriqueça com muita paz e luz.
Grande a afetuoso abraço

Maria José disse...

Minha queridíssima amiga Ester. Um texto desse, escrito pelo Frei Beto, mostra o quanto ele entende da alma humana. É saber se colocar no lugar do outro e sentir todas as sensações advindas da vida. Grande homem, grande alma. Belíssimo texto. Beijos.

Dani Leão disse...

Adélia, gostei muito deste texto.
Meu lado mulher se enterneceu e repudiou alguns dos fatos citados...Muitas vezes, nós mulheres não sabemos mais onde começa e termina nosso papel, qual é nossa verdadeira essência e para onde devemos seguir. Acredito que na tentativa e acerto, estamos chegando lá...

Muitos beijos e ótima semana!!

Jeanne disse...

Amiga, tem um selo pra ti lá no blog, é com muito carinho que te ofereço.
Beijos

Denise disse...

Oi, amiga!!

Tem selinho pra vc lá no blog, passa buscar, tá?
Bjos

http://baliar.blogspot.com/2010/03/selo.html